Dia 21

Querida Norabel,


Onde está você? Apareça com todo aquele amor que só tu sabes.

Dar-te-ei meus abraços, meus aconchegos, meus beijos, meus carinhos. Minha vida.

Sinto tanto a sua falta, meu amor. Apenas desejo olhar em teus olhos mais uma vez! Algumas horas mais e estaremos juntas.
Pela eternidade como sempre planejamos.

Como eu planejei minuciosamente para nós duas.


                                                      Tua e só tua,
                                                                     Aimée Garret.
                                               


Dia 20

Querida Aimée,


Escrevo-te esta última carta. Guarda como lembrança de todo o meu amor, de toda minha saudade. De todas as minhas noites perdidas por tua causa, de todas as lágrimas derramadas nos lençóis, de toda falta de senso.

Não te culpo, fui exagerada, pávida nos pensamentos. Até pérfida.
Desculpe-me se não aceitei. Não saberás mais de mim, talvez ninguém mais saiba.

Eu te amo, Aimée Garret, sempre amei. Nunca esqueça.

Considere esta uma carta póstuma, pois, neste momento enquanto estás lendo, grito embaixo de onde tu pisas sobre todo o meu amor.

Durante isso, meu refúgio amado, considero-te morta.

                                                                        Com amor, ou não,
                                                                                              Norabel Haidee.

Dia 19

Querida Aimée,

Sofri um choque [de realidade].
Sinto-me sozinha. Quem és tu, afinal? Passaram-se meses de puro isolamento e ainda aguardo.
Será que sou mesmo tão louca quanto dizem?
Será que falam a verdade sobre nós, sobre ti?

E essa aliteração toda com S da Saudade que se assemelha à um câncer. Prestes a ser arrancado do peito.

Passei tanto tempo sofrendo com a ausência de alguém que eu esperava voltar? Aprendi que a morte é irreversível, mas não aceito usar esta palavra para teu caso.

Sei que estás aí, sei que recebes tudo. Me inconformo ao pensar que me ignoras. Após todos esses dias, percebi que não me queres bem. Não mais.
Desisto por completo. Perdoa-me.


                                      N. Haidee.

Dia 18

Querida Aimée, 



Tomaram-me tudo. Tiraram meus pertences. Levaram as chaves. O anel.

Puseram-me na cama. Prenderam-me os membros. Falavam alto. Meu nome.

Fecharam a porta. Esqueceram de mim. Tornei a dormir. E sonhar.

Sentia teu toque. Presenteava-me com tua presença. Ouvia tua voz. E beijava-me.

Vi a escuridão. Ias embora para longe. Sorrias como se estivestes livre do mal. De mim.

Acordei de tudo. Virei-me para os lados. Procurei uma saída. Você.



                                 
                                                                                                                    Sua Norabel.

Dia 17

Querida Aimée,

Nunca precisei tanto de teu conforto quanto agora. Por favor, apareça, me dê um sinal qualquer. Não estou mais suportando te esperar, nem suportando esses pensamentos inconvenientes.

Estou sendo julgada como incapaz por pessoas que nem ao menos me conhecem. E aquela mulher se acha esperta o suficiente para dizer todas aquelas loucuras! Nem ao menos sei como parei neste lugar, neste inferno. Ou antes fosse.

Venha, amor, me tira daqui e me leva para nossa casa. Venha hoje, à tarde, à noite. Mas venha, me salve como da primeira vez quando nos conhecemos.

                                           Com todo o amor,
                                                                    Norabel Haidee.

Dia 16

Querida Aimée,


Tornei a acordar no mesmo lugar, ninguém por perto, o Boris devia sentir minha falta...

Após algumas horas, uma senhora entrou e, cuidadosamente, levou-me pelo braço por um corredor rodeado por portas. No fim, fui entregue ao que parecia ser um escritório. Lembro apenas de sentar e ser bombardeada de perguntas.


Como aquela mulher ousava duvidar de mim? Como ousava remexer nas minhas cousas mais profundas? Parei aquilo tudo ao ouvir suas últimas palavras:

"Mas, querida, entenda que tudo isso é de uma nulidade tamanha. Essas besteiras escritas são inúteis! Entenda que vamos cuidar disso. Não, ela não existe mais."


N.

Dia 15

Querida Aimée,

Eles apareceram de novo, bateram à porta. Procurei me esconder, mas senti meus músculos imóveis, eu estava encurralada entre as paredes. Ouvia gritos, meu nome sendo atração para os vizinhos - a velha louca e sua vassoura espreitavam pela brecha de seu apartamento.

Foi quando o barulho tornou-se comparecente. Eles me colocavam nos braços e eu chutava o vento em vão. Tudo ficou escuro. Acordei em um quarto branco, estava presa em meus próprios braços.

Eu sabia que havia duas pessoas do outro lado da porta. Me chamavam de louca e eu não aguentava mais. Eles falavam de ti, amor, meu amor cujo nome apenas sai mavioso se dito por minha boca.

Ah!, os condeno por tamanha blasfêmia.


                                              Norabel.